Tu sabes como o tempo soa? Tic... tac... tic... tac... Para a maioria de nós, é apenas o som de um relógio na parede. Mas para o Barnaby, um minúsculo espírito do jardim com apenas dez centímetros de altura, o tempo estava prestes a soar como uma ventania de folhas de ouro e prata. Barnaby não era um duende comum; ele tinha asas verdes com veias de esmeralda, exactamente como folhas de olmo, e usava botas feitas de pele de cobra que ele mesmo tinha encontrado. Ele vivia num jardim moderno, muito limpinho e sossegado, onde a sua maior tarefa era polir as pétalas das margaridas. Mas Barnaby sentia que lhe faltava algo... uma pitada de aventura.
Certa manhã, enquanto cavava perto das raízes de um carvalho antigo para limpar um bocado de musgo, a sua pequena pá de casca de nogueira bateu em algo duro. Clunc! Barnaby limpou a terra com as suas mãos pequenas e o seu coração deu um salto. Era um objecto de metal pesado, dourado e redondo. Um relógio de bolso antigo! Puf! A poeira voou quando ele soprou. Ele conseguia ouvir algo lá dentro... um bater rítmico, como um coração de ferro. Tic-tac, tic-tac. Barnaby, curioso como só um espírito de oito anos pode ser, rodou uma pequena alavanca lateral.
De repente, o mundo começou a girar! As flores à sua volta murcharam e cresceram num piscar de olhos. O sol cruzou o céu como uma bala de canhão. Vruuum! O vento assobiava nas suas orelhas pontiagudas e Barnaby apertou o relógio contra o peito. Quando finalmente tudo parou, o jardim estava diferente. Não havia cercas de madeira, nem mangueiras de plástico. O ar cheirava a terra selvagem e a ferro frio. Barnaby tinha viajado centenas de anos para trás, para o passado!
Consegues imaginar o susto dele? O céu estava cinzento e um vento gelado soprava. No centro do prado, Barnaby viu pequenas manchas de cor: as Primeiras Primulas da primavera. Eram as antepassadas de todas as flores do seu jardim! Mas havia um problema. Pequenas nuvens de fuligem, escuras e ruidosas, flutuavam sobre elas. Eram os Roedores-de-Gelo! Eles adoravam petiscar os botões tenros antes mesmo de abrirem.
"Ei! Parem com isso!" gritou Barnaby, batendo as suas asas de folha com força. Mas os Roedores-de-Gelo apenas riram com sons de estalidos de gelo. O relógio nas mãos de Barnaby começou a brilhar intensamente. Ele percebeu que a tecnologia humana e a magia da natureza estavam ligadas. Se aquelas flores morressem ali, elas nunca existiriam no seu futuro. Barnaby não esperou que nenhum adulto o viesse salvar; ele tinha o seu saco de semente de carvalho e o seu cérebro de inventor.
Ele correu para as plantas e, usando as metades de cascas de bolota que trazia no saco, criou pequenos domos — como mini estufas — sobre os botões mais frágeis. Zás! Uma protegida. Zás! Outra protegida. Mas os Roedores-de-Gelo eram muitos. Barnaby olhou para o relógio. A engrenagem estava a ficar lenta. Tic... tac... Ele precisava de uma ideia rápida! Barnaby lembrou-se de como o relógio pausava o tempo quando ele mexia na alavanca.
Com um movimento corajoso, ele levantou o relógio bem alto. "Agora!" gritou ele. Ele girou a corda ao contrário com toda a sua força. Cric-cric-cric-BUM! Uma onda de calor dourado saiu do relógio, criando uma bolha de tempo quente em redor das flores. O gelo derreteu instantaneamente e os Roedores-de-Gelo, que detestavam o calor, fugiram a voar como fumo levado pelo vento.
A Rainha das Prímulas, a flor mais bonita do meio, abriu as suas pétalas amarelas e brilhou para ele. O Grande Carvalho, que naquela época ainda era um jovem robusto, rangeu os seus ramos em sinal de agradecimento. Barnaby sorriu, mas sentiu um puxão no seu cinto de dente-de-leão. O relógio estava a brilhar com uma luz branca ofuscante. Era hora de voltar.
Num feixe de luz e um som de Shuuum!, Barnaby foi transportado de volta para o seu jardim moderno. O relógio agora estava silencioso, as suas engrenagens finalmente descansadas. Barnaby olhou à sua volta e viu algo maravilhoso: as flores do seu jardim pareciam mais brilhantes e fortes do que nunca, como se soubessem que ele as tinha salvo há séculos atrás. Ele percebeu que o presente é um presente que o passado nos deu.
Barnaby enterrou o relógio com cuidado no mesmo sítio, cobrindo-o com musgo macio. Algumas magias são demasiado poderosas para ficarem guardadas numa prateleira; pertencem à terra. E assim, com um último brilho nos seus olhos de âmbar, Barnaby voltou a polir as suas folhas, sabendo que até o mais pequeno guarda pode mudar a história. E foi assim que tudo ficou bem, desde o primeiro tic até ao último tac.